Encontrar um meio-termo entre cuidar do próprio corpo e reduzir os danos ao planeta pode parecer inviável quando o assunto é comer carne. Um grupo de cientistas ambientais, porém, estimou um “ponto ideal” prático - algo que dá até para anotar na lista de compras.
"A maioria das pessoas já percebe que deveríamos comer menos carne por motivos ambientais e de saúde. Mas é difícil transformar esse 'menos' em uma quantidade concreta e entender se isso realmente muda algo no quadro geral", afirma a autora principal Caroline Gebara, cientista ambiental da Universidade Técnica da Dinamarca.
O número prático: 255 gramas de aves ou porco por semana
Para tornar essa meta palpável, Gebara e a equipe chegaram a um valor específico: 255 gramas (9 onças) de carne de aves ou de porco por semana - uma referência que dá para usar ao abastecer a geladeira.
Na prática, isso equivale a mais ou menos dois filés de peito de frango. Ainda assim, é uma quantidade de seis a dez vezes menor do que a consumida, em 2021, por um cidadão médio dos EUA ou da Europa.
Por que a carne vermelha - especialmente a bovina - não entra na conta
O estudo também indica que a carne vermelha, sobretudo a bovina, não consegue fazer parte de uma alimentação ambientalmente sustentável. Uma razão provável é a necessidade de abrir grandes áreas de terra para criar animais como vacas e ovelhas; além disso, esses rebanhos liberam metano (um gás de efeito estufa 28 vezes mais potente que o CO2) e óxido nitroso (270 vezes mais potente que o CO2) por meio dos dejetos e das lavouras usadas para ração.
"Nossos cálculos mostram que mesmo quantidades moderadas de carne vermelha na dieta são incompatíveis com o que o planeta consegue regenerar em recursos, com base nos fatores ambientais que analisamos no estudo", diz Gebara.
"No entanto, existem muitas outras dietas - inclusive com carne - que são saudáveis e sustentáveis."
Seres humanos consomem animais e seus subprodutos há pelo menos 2,6 milhões de anos, e isso não deve mudar tão cedo. O problema é que o apetite atual por carne, para dizer o mínimo, passou do ponto.
Boa parte da pegada ambiental da pecuária vem dos gases de efeito estufa emitidos diretamente pelos animais, do impacto sobre as terras usadas para criá-los e do combustível gasto no transporte, no processamento (transformar animais em carne) e na distribuição até chegar ao prato.
Um estudo estimou que as emissões de gases de efeito estufa poderiam se estabilizar por 30 anos se a agropecuária animal, do jeito que existe hoje, fosse encerrada rapidamente. Trata-se de um cenário improvável, mas que ajuda a dimensionar o peso do setor no planeta.
Como o modelo foi montado (e por que ele tem limites)
Com esse contexto, Gebara e colegas fizeram revisões de literatura para definir limites de dietas saudáveis - o que resultou em 32 exigências nutricionais principais - e, ao mesmo tempo, estabelecer o que seria ambientalmente sustentável, com base em vários limiares-chave de sustentabilidade planetária.
A partir daí, construíram um modelo que aponta quanto de diferentes grupos de alimentos uma pessoa poderia consumir por semana sem impor uma pressão excessiva sobre os recursos do planeta.
"Por exemplo, nossos cálculos mostram que é possível comer queijo se isso for importante para você e, ao mesmo tempo, manter uma dieta saudável e favorável ao clima", afirma Gebara. "O mesmo vale para ovos, peixe e carne branca, mas a premissa é, claro, que o restante da sua alimentação seja relativamente saudável e sustentável. Não precisa ser um ou outro."
Os próprios autores reconhecem que modelos desse tipo podem simplificar demais necessidades alimentares e circunstâncias individuais. Além disso, as características dos alimentos usadas na parte nutricional do estudo se baseiam em dados dos EUA, funcionando mais como um retrato aproximado de países de alta renda do que como algo representativo do mundo todo.
Também é difícil abarcar, em um trabalho como esse, todos os impactos variados que sistemas alimentares geram ao redor do planeta. O modelo ainda depende da suposição de que os impactos da produção de alimentos permaneçam consistentes ao longo de um ano - o que não acontece na vida real. Como tecnologias podem alterar a pegada ambiental de certos alimentos, o modelo precisará ser atualizado com o tempo.
"Nosso estudo se concentrou nos limites biofísicos da ingestão humana de nutrientes e nos impactos ambientais, mas deixou de lado outros aspectos, como acessibilidade, custo e aceitação cultural", escrevem os autores.
"Alcançar dietas verdadeiramente sustentáveis exige disponibilidade universal, algo que precisa ser apoiado por formuladores de políticas em todos os níveis."
Esta pesquisa foi publicada na revista Nature Food.
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