Uma sexta-feira diferente na Travessa de Miraflor
Há 17 anos, a Travessa de Miraflor muda de ritmo quando chega a sexta-feira. A Adega Típica A Viela, que funciona como restaurante na hora do almoço, reabre no fim da tarde do último dia útil para receber o fado vadio, servir petiscos e estimular o encontro entre diferentes gerações de fadistas e apaixonados pelo gênero.
"Eu era ainda menina e já vínhamos para aqui para o baile", lembra Rosa Meireles, que desde 2009 está à frente da Adega Típica A Viela - uma casa de petiscos e de almoços conhecida, sobretudo, pelas tardes de fado às sextas. Nesse dia, por volta das 16 horas, os fadistas habituais começam a chegar, junto com quem procura ouvir e aplaudir o fado vadio. A plateia, aliás, é variada: há diferença de idades, de gêneros e de estilos.
Rosa Meireles e a história da Adega Típica A Viela
Nada do que a casa é hoje surgiu de uma vez só. Foi ao longo desses 17 anos que Rosa Meireles assumiu o espaço e o foi moldando. Nascida na Ribeira - e com orgulho disso - acabou construindo vida em Rio Tinto depois de se casar. Por lá, teve vários negócios de restauração, até que o caminho a trouxe novamente ao Porto.
Antes de assumir a Viela, ficou dois meses no Carioca, um café ali perto. Quando soube que a proprietária do espaço (também chamada Rosa) queria passar o negócio adiante, decidiu na hora. "Isto já era um restaurante, mas servia três ou quatro pratos por dia. Eu sirvo centenas", diz.
O lugar sempre lhe foi familiar desde a infância, o que contou a favor. E ela também aprecia o fato de a cozinha ficar colada ao balcão, o que permite acompanhar o andamento do serviço de perto.
No horário de almoço, cozinha e salão seguem num ritmo constante, com o filho, André Meireles, à frente do atendimento. Todos os dias há várias sugestões diárias por 9 euros, e cada dia mantém ainda um prato fixo: segunda-feira, rancho; terça, arroz de feijão com panados; quarta, feijoada à transmontana; quinta, arroz de cabidela; e sexta, rojões.
Sextas de fado vadio: tradição, prêmios e gerações
A ideia de reservar um dia para o fado partiu da própria Rosa. "Eu amo fado, o meu pai era fadista, e eu também gosto de cantar. Sou eu que fecho a sessão de fados, às sete e meia." Pelo trabalho desenvolvido, em 2021 ela recebeu a medalha de mérito do Porto e, neste último 25 de Abril, uma medalha de mérito da Junta de Freguesia de Campanhã.
O reconhecimento fica fácil de entender quando se vê o que acontece às sextas: o ambiente vira ponto de encontro de várias idades, com os mais velhos a fazer questão de dividir a paixão pelo fado.
É o caso de Aurélio Brito, presença semanal, que passa ali a tarde com os amigos e conhece bem quem sobe para cantar. "O fado é o sentimento da vida", afirma com convicção - ele, que há anos frequenta o circuito fadista portuense.
Músicos, regras da casa e petiscos na mesa
A base musical é garantida por André Mariano, na guitarra portuguesa, e Paulo Faria de Carvalho, na viola. Ainda assim, é comum aparecerem outros músicos para se juntar, como aconteceu na tarde em que a Evasões visitou o espaço, quando o flautista João Calçada acompanhou alguns fados.
Mariano, músico profissional e com álbuns gravados, diz ficar contente por ver tantos jovens se aproximando de um gênero que é património da Humanidade. Ele conta que artistas e poetas mais novos usam essas tardes para experimentar poemas originais sobre fados tradicionais. "O fado aprende-se nas casas de fado. Até porque continua a não haver escolas específicas para aprender", explica.
Com o avançar da tarde, a casa vai ficando pequena para tanta gente. Entre moradores da cidade, turistas e "jovens com cultura", Rosa Meireles diz se encher de alegria. José Carlos, responsável por apresentar o espetáculo e também por cantar com voz marcante, coordena com calma o entra e sai, já que ninguém pode circular enquanto alguém está a atuar.
Enquanto as atuações se alternam, chegam às mesas petiscos feitos na hora: bolinhos de bacalhau, chouriço assado, tripas ou pataniscas. Também aparecem pratinhos de camarão cozido e, para acompanhar, canecas de receita, cerveja e vinhos. Assim a sexta vai correndo, entre a animação do encontro e a tonalidade fatalista do fado.
Foi isso que se ouviu, por exemplo, na voz de Conceição Rodrigues, num fado antigo: "E ali nas vielas do passado, já ninguém conhece o fado. Ninguém sabe onde ele mora". Um fingimento poético - porque, às sextas-feiras, todos sabem que é naquela Viela que o fado mora.
Serviço, horários e preços
Adega Típica A Viela
Travessa de Miraflor, 15, Porto
Tel.: 933 928 181
Web: Facebook
Das 12h às 15h, de segunda a sábado. Fado das 16h30 às 19h30, às sextas
Pataniscas, 1,50 euros; tripas, 4 euros; pratinho de camarões, 5 euros. Menu do dia: 9 euros
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