Se você acha que suas colegas de trabalho reclamam do frio “sem motivo” quando o ar-condicionado liga, vale rever essa ideia: os padrões térmicos de escritórios simplesmente não foram pensados para mulheres. Eles foram calculados há mais de 50 anos, por homens e para homens - e, desde então, praticamente não passaram por revisão.
Quando o verão volta com força (ainda mais nesta semana, que foi realmente terrível), em muitos escritórios a climatização é religada. Embora a legislação trabalhista não obrigue os empregadores a equipar necessariamente os ambientes, trabalhar com uma temperatura mais amena e com ar recirculado costuma ser mais confortável. Só que esse “conforto” é bem relativo: para uma parcela grande de funcionárias, o retorno do ar-condicionado marca o início de uma longa temporada de luta contra temperaturas frias demais, que muitos colegas homens consideram totalmente suportáveis.
Esse incômodo, bastante comum, foi demonstrado com dados por uma equipe de pesquisadores da Califórnia e da Austrália. Em um estudo publicado em 8 de dezembro de 2021 na revista Scientific Reports, eles mostram que as temperaturas em espaços de trabalho não são adequadas para as mulheres.
Ainda que a pesquisa tenha sido feita nos Estados Unidos, no Brasil e na Europa o problema é comparável: as referências usadas para definir conforto térmico no escritório seguem padrões internacionais baseados no PMV (Predicted Mean Vote), posteriormente incorporados à norma ISO 7730, aplicada em todos os países europeus. Mesmo já consideradas ultrapassadas, essas normas carregam um viés de conceção que a comunidade científica aponta desde os anos 2000 - sem que os organismos de normalização tenham se mobilizado para atualizá-las. Isso soa especialmente anacrônico num momento em que algumas empresas exibem “cartas de inclusividade”, selos de igualdade, compromissos de ESG/RSE e outras reformas de imagem.
Mulheres no escritório: vítimas do sexismo do ar-condicionado?
Como os pesquisadores combinaram pesquisa e redes sociais
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores cruzaram duas fontes independentes de dados. A primeira reuniu quase 39 000 respostas de uma pesquisa feita com ocupantes de 435 edifícios de escritórios distribuídos por 168 cidades americanas. A segunda foi mais informal e inusitada: 16 791 tweets publicados entre 2010 e 2019 por trabalhadores reclamando de sentir frio no escritório.
O primeiro achado foi direto: 38 % dos participantes disseram estar insatisfeitos com a temperatura no local de trabalho - quase o dobro do limite de 20 % estabelecido pelas normas de conforto térmico em vigor. Dentro do grupo insatisfeito, as mulheres correspondiam a perto de dois terços. E a probabilidade de vivenciar desconforto térmico era 1,8 vez maior para elas do que para os colegas homens.
Por que o modelo PMV (Predicted Mean Vote) deixa as mulheres em desvantagem
As normas em causa foram desenhadas nos anos 1960, como já referido, a partir do modelo PMV. Trata-se de um índice matemático formalizado por um engenheiro dinamarquês, Povl Ole Fanger, calculado com base num “corpo humano” de referência que, na prática, estava longe de representar a população: um homem sedentário, de fato e gravata. A produção de calor atribuída ao organismo desse perfil (58,15 W/m2) foi tratada como valor universal, apesar de o metabolismo feminino em repouso ser 20 a 35 % menor do que esse parâmetro.
Em termos simples, mulheres tendem a produzir menos calor e, por isso, precisam de uma temperatura ambiente mais alta para manter o equilíbrio térmico. Esse desfasamento fisiológico nunca foi incorporado ao modelo PMV, embora ele continue a ser usado mundialmente até hoje.
Os autores também identificaram um componente mais cultural e social: no ambiente de escritório, homens geralmente usam mais camadas de roupa do que mulheres. Ainda assim, os pesquisadores relativizam essa hipótese e indicam que, pelos dados disponíveis, as diferenças de vestuário entre homens e mulheres no verão não são suficientemente grandes para, sozinhas, explicarem a diferença de conforto térmico medida no estudo.
Ar-condicionado: um detalhe que custa caro
Produtividade, temperaturas de consigna e consumo de energia
Essa discrepância pesa muito na produtividade, porque os pesquisadores encontraram uma forte correlação entre a temperatura percebida e o desempenho no trabalho. Considerando toda a coorte analisada, 42 % das mulheres afirmaram que a temperatura prejudicava sua capacidade de trabalhar, contra 27 % dos homens.
A diferença de 15 pontos é associada diretamente pelos autores à prevalência de “superclimatização” (ar-condicionado excessivo), e não a uma suposta sensibilidade especial das mulheres ao frio. Eles acrescentam que as explicações frequentemente citadas na literatura (metabolismo mais baixo ou roupas mais leves) têm um efeito perverso: segundo eles, acabam por “colocar as mulheres como a origem do problema, em vez dos próprios ambientes térmicos dos escritórios”. Para os autores, a solução está longe de ser complexa, porque bastaria “elevar a temperatura dos escritórios no verão, em conformidade com as normas de conforto térmico”. É uma medida ao alcance de qualquer empresa e que “seria suficiente para corrigir o viés de género ligado às temperaturas de consigna [isto é, a temperatura-alvo programada no termostato]”, além de permitir economizar na conta de energia elétrica e reduzir a contribuição, ainda que modestamente, para o aquecimento global.
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