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Ferramentas de madeira na Grécia com 430.000 anos revelam novas pistas

Homem escavando com ferramenta de madeira na beira de um lago em área seca e com equipamentos de escavação.

Ferramentas de madeira do passado humano remoto costumam ter dimensões parecidas. Em geral, foram feitas para encaixar bem na mão, e o número de achados acumulados permite aos arqueólogos reconhecer esse padrão.

Agora, um sítio arqueológico na Grécia revelou duas peças de madeira entalhada datadas de 430.000 anos. Uma delas é um bastão de escavação, desgastado pelo uso numa margem de lago. A outra é tão pequena que só poderia ter sido segurada entre os dedos.

Ferramentas de madeira raramente sobrevivem

Para que objetos de madeira atravessem centenas de milhares de anos, é preciso uma combinação rara de circunstâncias. Eles precisam permanecer encharcados e isolados do ar; por isso, quase tudo o que humanos antigos talharam em madeira desapareceu do registro.

Essa ausência vem incomodando pesquisadores há décadas. É possível observar lâminas e lascas de pedra, com suas bordas cortantes e marcas de percussão. Já os bastões de escavação, os cabos, e o equipamento de madeira do dia a dia quase nunca aparece. Quando um sítio preserva madeira, ele rapidamente se torna valioso.

O local fica na Bacia de Megalópolis, na região central do Peloponeso, no sul da Grécia. Ali, sedimentos encharcados e pobres em oxigénio ofereceram exatamente o que a madeira precisa para contrariar as probabilidades: mantiveram o material protegido da decomposição.

As ferramentas mais antigas da Grécia

No ponto conhecido como Marathousa 1, uma equipa internacional analisou 144 fragmentos de madeira preservada recuperados do solo. A maior parte não apresentava nada de especial. Dois, porém, destoavam - e esses dois passaram a ser as ferramentas de madeira portáteis mais antigas já encontradas.

Katerina Harvati, especialista em evolução humana na Universidade de Tübingen (Uni Tübingen), na Alemanha, co-liderou o trabalho com Annemieke Milks, da Universidade de Reading, na Inglaterra. A equipa avaliou cada fragmento ao microscópio.

O objetivo era identificar sinais que processos naturais não produziriam. A peça maior, feita a partir de uma secção de amieiro, exibe marcas nítidas de corte e entalhe, além de desgaste compatível com uso. A equipa considera que ela serviu para cavar o solo macio da margem do lago.

Uma história mais longa

Antes desse achado, as ferramentas de madeira portáteis mais antigas vinham de sítios mais recentes distribuídos pela Europa, África e Ásia. As peças gregas superam o recorde anterior em pelo menos 40.000 anos, um intervalo relevante na evolução humana.

Existe, de facto, um exemplo mais antigo de madeira trabalhada: um achado na Zâmbia datado de aproximadamente 476.000 anos. No entanto, tratava-se de um elemento estrutural - dois troncos encaixados com entalhes - e não de algo que uma pessoa pegasse e transportasse.

Essa diferença é central. Um bastão de escavação sugere que alguém planeou uma tarefa, escolheu a madeira adequada, deu forma para caber na mão e a levou até o local de trabalho. É a antecipação materializada. O comportamento recua para um período mais antigo do que se tinha conseguido confirmar.

A ferramenta de madeira mais estranha

É no segundo objeto que a descoberta fica realmente incomum. Trata-se de um pequeno fragmento de salgueiro ou álamo, também talhado e possivelmente com marcas de uso, mas pequeno demais para ser segurado com a mão fechada.

A equipa suspeita que ele era manuseado entre os dedos, e não com a palma inteira. Uma ferramenta de madeira nessa escala nunca havia sido documentada para esse período. Ela pode ter ajudado em tarefas minuciosas relacionadas à produção de ferramentas de pedra, embora a sua função permaneça incerta.

É essa parte do estudo que tende a atrair mais atenção. Comprovar que humanos antigos usavam bastões de escavação está de acordo com o que os pesquisadores já supunham.

Já encontrar um instrumento de madeira segurado pelos dedos, excepcionalmente pequeno para a sua idade, é outra história. Abre uma possibilidade que ninguém sabia estar ali.

Uma margem de lago perigosa

As ferramentas de madeira não apareceram isoladas. Elas foram encontradas junto de lascas de pedra, ferramentas de osso e restos de elefantes-de-presas-retas abatidos e esquartejados. Era um ponto à beira do lago onde as pessoas processavam presas de grande porte.

Um terceiro pedaço de amieiro revelou um lado mais sombrio do cenário. Ele também tinha sulcos profundos, mas uma análise cuidadosa atribuiu essas marcas às garras de um grande carnívoro - possivelmente um urso - e não a qualquer ação humana.

Harvati interpreta essa sobreposição como evidência de disputa. Pessoas e grandes predadores eram atraídos pelas mesmas carcaças no mesmo lago, e as marcas impressas na madeira e nos ossos indicam que esses encontros foram frequentes.

Olhar para além da pedra

Por muito tempo, o passado profundo do trabalho em madeira dependeu sobretudo de deduções. Pesquisadores presumiam que humanos antigos lidavam com madeira o tempo todo - como as populações atuais fazem -, mas a prova apodrecia antes de poder ser estudada.

Essas ferramentas mudam o que se pode afirmar com segurança, em vez de apenas inferir. É evidência direta, finalmente.

Há 430.000 anos, humanos talhavam e utilizavam ferramentas de madeira portáteis, indo de implementos robustos para escavação até uma peça delicada manuseada com os dedos.

O próximo impacto recai sobre a própria procura. Saber que existiam ferramentas minúsculas de madeira - e que elas podem sobreviver - incentiva arqueólogos a examinarem com mais atenção fragmentos antigos que antes seriam ignorados. Todo pedaço encharcado deve ser considerado um possível artefato.

As pessoas por trás do rótulo de Idade da Pedra parecem menos brutos presos às rochas e mais artesãos engenhosos e versáteis.

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