Mais um bicho que ninguém queria por perto vem se instalando no sul da França há alguns anos - e, em vez de recuar, a sua presença só cresce. Pense em verdadeiros microtázeres de seis patas, capazes de se espalhar e bagunçar ecossistemas inteiros.
Depois da chegada do vespa-asiática (Vespa velutina) e do mosquito-tigre (Aedes albopictus) à França continental em 2004, surge mais uma invasora no radar. O nome científico é Wasmannia auropunctata, conhecida como formiga elétrica ou pequena formiga-de-fogo - um apelido que já dá pista do problema.
Vinda das florestas tropicais da América do Sul, esse inseto minúsculo, com cerca de 1,5 mm, aparece há anos na lista da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza) entre as 100 espécies exóticas mais invasoras do mundo. Ela já tomou áreas extensas da África Central, ilhas do Pacífico e regiões do entorno do Mediterrâneo - e desde 2022 passou a ser registada no departamento de Var. O primeiro foco foi em Toulon, no bairro Saint-Musse; em 2024, um segundo foi identificado mais a leste, no município de Croix-Valmer.
O terceiro foco acabou de ser confirmado em abril deste ano, em Cavalaire-sur-Mer, ainda em Var. As autoridades locais, amparadas por uma portaria ministerial de 25 de março, já iniciaram o tratamento das áreas atingidas com inseticidas potentes, incluindo aplicações feitas por drones em alguns pontos. O cenário é claro: a formiga elétrica está circulando pela Costa Azul, e tudo indica que o controle já escapou das mãos.
A formiga elétrica: uma invasora que faz jus ao nome
Picada neurotóxica: dor intensa e sintomas prolongados
Ela recebeu esse nome por causa da picada: ao contrário das nossas formigas nativas, cujo veneno é sobretudo baseado em ácido fórmico (que arde como urtiga), o da formiga elétrica é neurotóxico. Mesmo liberando apenas uma quantidade minúscula a cada picada, a concentração de toxinas é muito alta e causa uma dor aguda, frequentemente descrita como uma forte descarga elétrica. A sensação pode durar até 8 horas, e a coceira que vem depois pode persistir por até 72 horas.
Uma picada isolada não costuma ser fatal, mas a espécie frequentemente se defende em grupo - o que pode provocar reações alérgicas severas em pessoas sensíveis ao veneno de himenópteros (abelhas, vespas, marimbondos, etc.). Em animais de estimação, como gatos e cães, o acúmulo de picadas na região dos olhos pode até levar à cegueira. Animais de criação também entram na lista de risco: cavalos, vacas, ovelhas e cabras.
Supercolônias da formiga elétrica: expansão rápida e “limpeza” do ambiente
Além da agressividade, ela se diferencia por um comportamento particular. Trata-se do que se chama de formiga andarilha: em vez de colônias que disputam território, elas formam supercolônias interligadas, com centenas - às vezes milhares - de rainhas, que não entram em guerra entre si. Sem competição interna, o conjunto avança com facilidade, espalhando-se como uma mancha de óleo.
Em locais dominados por uma supercolônia, pode haver até 20.000 operárias por m². Nesse nível de densidade, outras espécies de insetos praticamente não conseguem sobreviver, porque elas literalmente “varrem” a área onde se instalam, diante da incapacidade de defesa das demais.
O que fazer em caso de invasão em casa?
A formiga elétrica é extremamente oportunista: ela consegue se instalar quase em qualquer lugar e nem precisa construir um formigueiro. Pode aparecer em serrapilheira, madeira morta, sob cascas, no composto orgânico, em vasos de plantas, nas frestas das paredes das casas, sob lajes… Se entrar no seu quintal, virar um problema difícil de resolver é pouco.
Se você trata o solo, elas sobem para as árvores; se você trata as árvores, elas se escondem sob o piso do terraço - e o ciclo continua. Se a presença for certa, não vale a pena tentar erradicar sozinho. Por ser uma espécie invasora oficialmente classificada, o enfrentamento precisa ser coletivo. Avise a sua prefeitura (e, por gentileza, os vizinhos também) e registre o caso em canais oficiais, como o aplicativo INPN Espécies, gratuito na Google Play Store e na App Store. Procure empresas especializadas: são elas que têm as iscas adequadas para eliminar a praga.
Por que a formiga elétrica tende a avançar ainda mais
Diante do contexto atual, é muito provável que a formiga elétrica continue se expandindo pelo território e, com o tempo, deixe o sul da França e avance para outras áreas. É uma espécie muito resiliente, com alta capacidade de adaptação a diferentes ambientes, mas se multiplica com mais facilidade em climas quentes e úmidos. Com o aquecimento global, quase não há dúvida de que, dentro de alguns anos, as grandes cidades mais ao norte passem a oferecer biotopos tão favoráveis para essa espécie quanto o litoral de Var oferece hoje.
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