O que você vinha bebendo era mesmo água mineral natural? Essa é a dúvida no centro de uma ampla investigação judicial que levou, em 19 de maio, a buscas surpresa em unidades da Nestlé Waters ligadas às marcas Perrier e Vittel.
Buscas surpresa em Perrier e Vittel (Nestlé Waters) na França
Na terça-feira, 19 de maio, cerca de quarenta agentes do órgão de fiscalização e combate a fraudes entraram em dois endereços da Nestlé Waters na França: as instalações de produção da fábrica Perrier, em Vergèze (departamento de Gard), e os prédios de Vittel (departamento de Vosges). Os investigadores vasculharam as áreas onde ficam o laboratório responsável pelas análises de qualidade da água, além do centro de pesquisa e desenvolvimento da Nestlé Waters.
A ação ocorre dentro de um procedimento aberto pelo núcleo de saúde pública do Ministério Público de Paris, após uma denúncia por “engano ao consumidor” apresentada pela ONG Foodwatch contra a Nestlé Waters. Procurado pela equipe de investigação da Radio France, o grupo confirmou que “inspeções surpresa estão atualmente em andamento em dois de seus sites na França” e afirmou “cooperar plenamente com as autoridades”. Já o Ministério Público de Paris não divulgou posicionamento oficial.
Uma fraude presumida, com décadas de histórico
Em janeiro de 2024, revelações do Le Monde e da Radio France expuseram práticas consideradas preocupantes: águas comercializadas como “água mineral natural” ou “água de fonte” teriam passado por tratamentos de purificação proibidos para essas categorias, com o objetivo de remover contaminações bacterianas ou rastros de substâncias químicas identificadas na nascente.
As queixas da Foodwatch e o acordo recusado em Épinal
Depois disso, a Foodwatch passou a conduzir a ofensiva judicial. A ONG protocolou uma primeira queixa em fevereiro de 2024 e, em setembro, apresentou mais duas denúncias com constituição de parte civil, após rejeitar o acordo financeiro sugerido pelo tribunal de Épinal para encerrar o capítulo relativo à Nestlé Waters Grand Est. Na ocasião, a especialista em fraude da Foodwatch, Ingrid Kragl, declarou: “Uma negociação financeira selada em Épinal não deve pôr fim às investigações sobre uma fraude de alcance internacional”.
Marcas citadas e práticas apontadas pela organização
Nos documentos apresentados, a entidade descreve condutas que, segundo ela, remontariam a 1993 no caso de algumas marcas da Nestlé. A Foodwatch também mira o grupo Sources Alma, produtor da Cristaline (a água mais vendida na França), acusado de ter adicionado gás carbônico à água Chateldon, anunciada como “naturalmente gaseificada”, ou ainda de ter usado sulfato de ferro para reduzir a presença de arsênio no site de Saint-Yorre e em Vichy Célestins.
“Nenhuma multinacional está acima das leis”, resumiu Ingrid Kragl. As buscas realizadas nesta terça-feira parecem sinalizar que a Justiça compartilha, ao menos em parte, essa avaliação.
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