Em grande parte do planeta, insetos fazem parte do jantar. Mais de dois mil milhões de pessoas os consomem, e mais de 1.600 espécies aparecem em cardápios.
Já em cidades como Londres ou Chicago, oferecer a alguém um grilo assado tende a provocar mais caretas do que mordidas.
Costumamos atribuir essa repulsa à cultura, como se evitar insetos fosse um hábito aprendido - e não algo herdado de um passado mais antigo.
Um estudo recente feito em Barcelona, porém, indica que a explicação pode recuar milhares de anos: o lugar onde os seus antepassados viveram talvez pese mais do que a forma como você foi criado.
A evolução moldou as escolhas alimentares
Manuel Piñero e Pablo Librado, do Instituto de Biologia Evolutiva (IBE) em Barcelona, decidiram investigar por que sociedades ocidentais deixaram os insetos de lado.
Para isso, olharam para duas frentes: o que populações antigas realmente comiam e o que os genes dessas populações sugerem. As duas linhas de evidência apontaram para a mesma direção.
Em regiões próximas à linha do Equador, as pessoas consumiam insetos com frequência e conseguiam digeri-los bem. À medida que se avança para o norte, o costume se torna incomum - e o corpo encontra mais dificuldade para decompor insetos.
Ou seja: parece que a geografia, e não apenas o costume, ajudou a estabelecer a regra.
Pistas escondidas nos dentes antigos
Para reconstruir a dieta de tempos remotos, a equipa analisou o tártaro endurecido em dentes antigos, que pode aprisionar minúsculos fragmentos de DNA de alimentos por milhares de anos.
Foram examinados 745 humanos antigos, na maioria europeus, além de 18 neandertais, e os resultados foram comparados com os de primatas.
O achado mais inesperado foi este: gorilas - que seguem uma alimentação exclusivamente vegetal - apresentaram o maior volume de DNA de insetos, porque acabam engolindo pequenos bichos escondidos nas folhas que mastigam.
Em contraste, humanos antigos do norte quase não mostraram qualquer sinal de consumo de insetos.
Insetos quase não entravam na dieta
Mesmo nos raros casos em que apareceram vestígios de insetos em amostras humanas, isso quase nunca indicava uma refeição intencional.
Um indivíduo, por exemplo, teria engolido um inseto aquático ao beber água de uma lagoa. Outros traziam DNA de pragas que vivem em armazéns de cereais - mais compatível com comida deteriorada do que com um lanche.
Houve ainda um alerta metodológico: os dentes de um neandertal continham um besouro que só chegou à Europa na década de 1980, mostrando que sujidade moderna pode infiltrar-se em ossos antigos.
No conjunto, os dados sugerem que comer insetos de propósito era incomum na Europa.
Corpos adaptados aos trópicos
A genética contou uma história ainda mais nítida. Dois genes regulam enzimas do estômago responsáveis por quebrar a quitina, a “casca” rígida e crocante dos insetos.
Pessoas de regiões tropicais tendem a carregar variantes mais fortes desses genes, enquanto populações do norte apresentam variantes mais fracas.
Segundo os autores, essa diferença está entre os padrões norte-sul mais marcantes de todo o nosso genoma - e coincide com áreas onde os insetos são mais fáceis de encontrar.
“Grandes quantidades de insetos precisam ser ingeridas para compensar o alto gasto calórico envolvido em sua coleta”, afirmou Manuel Piñero, pesquisador de pré-doutorado no IBE e primeiro autor do estudo.
“Nos trópicos, há maior disponibilidade de insetos sociais, como cupins e gafanhotos: sua biomassa e diversidade permitem uma exploração sustentável ao longo do ano, o que ainda contribui para o controle de pragas.”
O rastro enfraquece no norte
Esse padrão não é recente. Ao analisar mais de 1.600 genomas antigos, a equipa constatou que ele se mantém há pelo menos 9.000 anos, atravessando sucessivas ondas de migração.
Ele também aparece em caçadores-coletores antigos, o que indica que começou antes mesmo da agricultura.
“A escassa presença de insetos na dieta de eurasiáticos do norte sugere que a ausência de entomofagia não se deve apenas a fatores culturais recentes, mas também a uma longa história ecológica e evolutiva”, disse Pablo Librado, investigador principal do IBE e líder do estudo.
Neandertais comiam muitos insetos
Os neandertais, no entanto, fugiam do padrão. Mesmo vivendo nas mesmas regiões frias, eles consumiam muito mais insetos do que humanos modernos próximos - e seus genes lidavam melhor com essa tarefa.
Nos dentes, havia abundância de DNA de moscas e mosquitos.
A hipótese dos investigadores é que eles se alimentavam de carcaças de animais já tomadas por larvas e, depois, mantinham essas carcaças em lagoas, onde mosquitos depositavam ovos.
Dietas modernas podem incluir insetos
O estudo indica que a aversão ocidental a insetos é, em parte, um hábito biológico antigo, formado em ambientes frios onde os insetos eram escassos demais para compensar o esforço de coletá-los.
“Além de fatores culturais ou religiosos, nossos resultados sugerem que a menor disponibilidade de insetos em áreas não tropicais pode ter sido um fator-chave no abandono da entomofagia, levando a uma capacidade reduzida de digerir exoesqueletos de insetos”, afirmou Librado.
Há, contudo, uma saída simples nos dias atuais: fábricas conseguem remover a quitina de difícil digestão, resultando em proteína pura que qualquer estômago pode processar.
Insetos podem voltar ao prato
Agora, a equipa de Librado está a estudar como criar esses insetos como animais de produção, comparando os insetos de criação atuais com seus parentes selvagens.
“Nós investigamos a evolução da domesticação em animais, o que também nos dá informações para melhorar a exploração de insetos para consumo, tanto como ração animal quanto para consumo humano”, concluiu Librado.
Se um grilo ainda faz você torcer o rosto, essa reação pode ser muito mais antiga do que parece. Mas ela não é imutável - e o alimento que os seus antepassados deixaram para trás pode, em breve, reaparecer à mesa.
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