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Como gorduras e óleos de cozinha podem influenciar o cancro de próstata na vigilância ativa

Médica e paciente discutindo saúde com suplemento e prato de salmão e abacate em foco.

Você já se perguntou se trocar o óleo usado para cozinhar poderia ter algum impacto no crescimento de um cancro? Essa dúvida é comum. Evidências recentes indicam que os tipos de gordura que consumimos podem influenciar a velocidade com que as células cancerígenas se multiplicam - embora a resposta esteja longe de ser simplesmente “corte tal alimento”.

Imagine receber o diagnóstico de cancro e ouvir do médico que, por enquanto, a melhor conduta é não fazer nada. Ainda não. Parece contraintuitivo, mas é exatamente isso que acontece todos os anos com milhares de homens com cancro de próstata.

Em muitos casos, os tumores evoluem tão devagar que cirurgia ou radioterapia causariam mais prejuízo do que benefício. Por isso, esses homens aguardam e fazem exames periódicos para acompanhar qualquer mudança.

Essa estratégia, chamada de “vigilância ativa”, é clinicamente sensata, mas pode ser emocionalmente desgastante. Nessa situação, uma pergunta aparece com frequência: existe algo que eu possa fazer para me ajudar?

Um estudo recente oferece parte dessa resposta - e ela passa pelas gorduras alimentares presentes em óleos comuns de cozinha.

Gorduras, óleos de cozinha e células cancerígenas

Na alimentação típica dos EUA, costuma haver excesso de um tipo de gordura e falta de outro.

As gorduras ômega-6 são frequentes em óleos vegetais, frituras e muitos produtos industrializados. Já as gorduras ômega-3 aparecem em grande quantidade em peixes como salmão e sardinha.

Em média, a maioria dos norte-americanos consome de 15 a 20 vezes mais ômega-6 do que ômega-3. Pesquisadores consideram que uma proporção mais próxima de 4:1 seria mais saudável. Esse desequilíbrio pode aumentar a inflamação, criando um ambiente que favorece o crescimento de células cancerígenas.

Como o estudo foi realizado

O Dr. William Aronson, professor de urologia na David Geffen School of Medicine, da UCLA, investigou se ajustar a ingestão de gorduras na dieta poderia reduzir o ritmo de crescimento do cancro.

“Este é um passo importante para compreender como a dieta pode potencialmente influenciar os resultados do cancro de próstata”, afirmou Aronson.

A equipa recrutou 100 homens com cancro de próstata em fase inicial que já estavam em vigilância ativa e, depois, distribuiu os participantes em dois grupos.

Metade manteve a alimentação habitual. A outra metade recebeu acompanhamento de um nutricionista para reduzir ômega-6, aumentar ômega-3 e tomar diariamente suplementos de óleo de peixe. Não foi exigido contar calorias nem perder peso.

“Muitos homens têm interesse em mudanças de estilo de vida, incluindo a dieta, para ajudar a controlar o cancro e evitar a progressão da doença”, explicou Aronson.

“As nossas conclusões sugerem que algo tão simples quanto ajustar a alimentação pode potencialmente desacelerar o crescimento do cancro e prolongar o tempo até que intervenções mais agressivas sejam necessárias.”

Acompanhamento do crescimento do tumor

Para avaliar se o crescimento das células estava realmente a abrandar, os investigadores precisavam de uma medida objetiva. Eles utilizaram um marcador chamado Ki-67, que indica a rapidez com que as células se dividem. Ki-67 elevado significa multiplicação rápida; Ki-67 baixo sugere divisão mais lenta.

Cada participante realizou uma biópsia no início do estudo e outra um ano depois. Um detalhe relevante é que, nas duas ocasiões, a recolha foi guiada por ressonância magnética (RM) para amostrar exatamente o mesmo ponto do tumor. Estudos anteriores muitas vezes recolhiam tecido de áreas não direcionadas, o que torna as comparações menos precisas.

Após um ano, os resultados seguiram caminhos diferentes. No grupo que mudou a dieta, os níveis de Ki-67 diminuíram; no grupo que manteve a dieta habitual, os níveis aumentaram.

Ou seja, no grupo que ajustou as gorduras, as células cancerígenas passaram a dividir-se mais lentamente, enquanto no grupo sem mudanças elas se dividiam mais depressa.

Por outro lado, alguns indicadores não se alteraram: os níveis de PSA e os graus tumorais permaneceram semelhantes entre os grupos. Isso não surpreende, porque essas medidas raramente mudam em apenas um ano.

Óleo de peixe e células cancerígenas

Alguns participantes abandonaram o estudo por efeitos gastrointestinais associados ao óleo de peixe. Além disso, o óleo de peixe pode interagir com anticoagulantes e outros medicamentos. Use suplementos de óleo de peixe apenas com orientação médica.

Mais importante: este trabalho não comprova que comer peixe vai mantê-lo fora do bloco cirúrgico.

“Esta diferença significativa sugere que as mudanças alimentares podem ajudar a desacelerar o crescimento do cancro, potencialmente adiando ou até evitando a necessidade de tratamentos mais agressivos”, prosseguiu Aronson.

Trata-se de uma indicação, não de uma prova; são necessários estudos maiores e com maior duração.

A pesquisa teve amostra pequena e foi feita num único hospital. Isso basta para gerar interesse, mas não para alterar diretrizes clínicas. Ainda assim, os investigadores analisaram tecido tumoral, em vez de depender apenas de exames de sangue.

Para quem está em vigilância ativa, a orientação prática é simples. Reduza frituras e snacks ultraprocessados. Consuma salmão ou sardinha duas vezes por semana. Considere ovos de galinhas alimentadas com linhaça. Acrescente sementes de chia ao pequeno-almoço. Mudanças pequenas podem somar-se.

Converse com o seu médico antes de iniciar suplementos de óleo de peixe. A qualidade varia entre marcas; prefira produtos testados por terceiros para reduzir contaminantes, como metais pesados.

Primeiro passo entre muitos que virão

O avanço científico costuma ser gradual. Primeiro, a investigação esclarece mecanismos; depois, estudos clínicos verificam se isso melhora, de facto, a vida dos doentes.

Este estudo abordou a primeira etapa - ao mostrar que ajustar a ingestão de gorduras, incluindo a troca de óleos na dieta, esteve associado a uma proliferação mais lenta de células cancerígenas no tecido tumoral.

A etapa seguinte - demonstrar que isso impede a disseminação do cancro ou adia o tratamento - ainda precisa ser confirmada.

Enquanto isso, melhorar a alimentação tende a não causar danos. Diferentemente de radioterapia ou cirurgia, ajustar o tipo de gordura ingerida geralmente implica menos efeitos adversos. Mesmo que o ganho em relação ao cancro seja modesto, a saúde cardiovascular e cognitiva também pode beneficiar.

Para homens em vigilância ativa, agir de forma construtiva pode ser melhor do que sentir que se está apenas à espera. O alívio psicológico de retomar algum controlo pode ser tão valioso quanto qualquer efeito biológico.

A dieta não é mágica e não substitui o acompanhamento regular do cancro. Mas, segundo estes achados, aquilo que você coloca no prato pode ter mais importância do que se imaginava.

O estudo completo foi publicado no Journal of Clinical Oncology.

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