Ver uma «mula de testes» fora dos portões de uma fábrica já é algo raro - normalmente esses carros acabam destruídos ou ficam guardados pelo fabricante para seguir como protótipos de desenvolvimento. Mais incomum ainda é quando a unidade em questão participou diretamente da criação do Ferrari LaFerrari.
O LaFerrari praticamente dispensa introduções. Ele foi o primeiro supercarro híbrido da marca do cavalinho rampante e integra a chamada “Santíssima Trindade” dos hiper esportivos, ao lado do igualmente impressionante McLaren P1 e do Porsche 918 Spyder.
Lançados em 2013, os três marcaram um ponto de virada na história dos supercarros ao combinar, de forma inédita nessa categoria, hidrocarbonetos com elétrons - ou seja, ao estrearem conjuntos mecânicos híbridos de alto desempenho.
Entre eles, o Ferrari LaFerrari era o único equipado com um V12 aspirado - os outros dois adotavam motores V8. Com 6,3 l de cilindrada, o V12 entregava 800 cv a empolgantes 9000 rpm, enquanto o motor elétrico somava mais 163 cv, elevando o total para 963 cv.
Ao todo, foram feitas 499 unidades (mais uma destinada ao Papa), e depois a Ferrari acrescentou 210 exemplares do LaFerrari Aperta, a variante conversível.
Projeto F150
Antes de o LaFerrari ser oficialmente o LaFerrari, o desenvolvimento do então projeto F150 foi organizado em três etapas. A primeira tinha como objetivo colocar na rua, pela primeira vez, a nova cadeia cinemática híbrida em testes reais.
Para isso, a Ferrari usou como base o seu outro supercarro de motor central-traseiro daquele período, o 458 Italia (Type F142). O problema é que o cofre do 458 havia sido pensado para um V8 - e não para acomodar um V12 mais comprido com um motor elétrico acoplado.
A base do 458 Italia transformada em M6
A solução foi alterar a estrutura de alumínio do 458 para conseguir «encaixar» a nova mecânica. Assim nasceu esta «mula de testes», identificada como M6, que rodou em atividades de desenvolvimento entre maio de 2011 e dezembro de 2012.
Como detalhe interessante, o V12 instalado neste protótipo M6 era o F140FB, enquanto o LaFerrari de produção recebeu uma evolução posterior, o F140FE.
O que a Ferrari desenvolveu com esta «mula de testes»
Além das mudanças no compartimento do motor, os engenheiros da Ferrari também adaptaram as torres de suspensão para avaliar a melhor forma de administrar a distribuição de massas. Ao mesmo tempo, esta «mula de testes» serviu para evoluir o sistema de freios, a direção, a suspensão e a integração dos pneus.
O M6 também recebeu a primeira aplicação do ESP (sistema eletrônico de estabilidade) que seria utilizado no LaFerrari.
As duas fases seguintes - chamadas “Second Family Mulotipo” e “Third Family Preserie” - corresponderam, respectivamente, a uma segunda família de «mulas de teste» e a uma terceira (e última) família com unidades de pré-série. Essas etapas exigiram protótipos diferentes, cada vez mais próximos do modelo definitivo de produção.
Vendido em 2016
Apesar de extraordinário, não é a primeira vez que uma «mula de testes» da Ferrari vai parar nas mãos de um particular. Em geral, trata-se de uma espécie de reconhecimento da marca a clientes muito fiéis, «disponibilizando-as» quando elas deixam de ter utilidade no programa de desenvolvimento.
Foi exatamente o que aconteceu com o M6: ele foi vendido a um cliente em julho de 2016 e, antes da entrega, passou por uma renovação e recebeu nova pintura. Há, porém, uma restrição importante: ele não pode rodar em via pública, e a Ferrari também não quer que ele seja usado em eventos de corrida em circuitos públicos. Para conduzi-lo, apenas em propriedade privada.
Restrições, uso e quilometragem registrada
Mesmo com essas limitações, o hodômetro marca 3322 km, indicando que este M6 ainda teve algum uso ao longo dos anos.
O protótipo de testes será vendido novamente, agora em um leilão da RM Sotheby’s marcado para 14 de maio, em Mônaco.
Acabamento, camuflagem e interior “de laboratório”
Ele chama atenção pela pintura externa preta (Nero) fosca e pelo interior em Pelle Beige. Alguns painéis e trechos da carroceria estão cortados ou apresentam acabamento mais rústico - e, ainda mais curioso, o carro acompanha um conjunto de painéis secundários usados como camuflagem durante os testes em estrada.
Considerando que se trata de um protótipo de desenvolvimento, nada está «organizado» e «limpo» como se espera de um carro final. Há fiação aparente, escudos térmicos provisórios no cofre do motor e tubos e mangueiras salientes onde não deveriam estar.
Ainda mais incomum é encontrar, na cabine, anotações feitas com marcador, folhas impressas com notas de testes coladas no painel e até componentes mecânicos expostos atrás dos bancos.
Este protótipo de testes é reconhecido oficialmente pela Ferrari e acompanha um certificado emitido pela Ferrari Classiche.
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